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Homilia do Prior - XXVIII Domingo Tempo Comum

11 Outubro 2021

“Em busca da sabedoria”

 

Salomão, no livro da Sabedoria, diz que preferiu a sabedoria aos cetros e tronos, que, em comparação com ela, considerou todas as riquezas como nada e que a amou mais do que a saúde e a beleza. Buscar a sabedoria é algo de fundamental. A pergunta do jovem rico que ouvimos no Evangelho recorda isso mesmo: que hei - de fazer para ter a vida eterna? Pode ser traduzido: como ter uma sabedoria de vida que me permita viver plenamente?

Querer ser sábio, eis o desafio... Mas o que é a sabedoria?

 A ideia de sabedoria que temos na Bíblia reflecte a relação que o povo de Deus tinha com o mundo das grandes civilizações do Médio Oriente, para as quais a sabedoria era saber como viver, ou seja, o que fazer, mas também se liga ao mundo grego que procurava na filosofia um conhecimento da realidade mais profundo, o significado da vida.

Também nós: por um lado, queremos responder a questões comuns dos nossos contemporâneos, venham de onde vierem, para saber como viver bem, e, por outro lado, queremos ir mais longe do que um simples saber como fazer, e procuramos o sentido da vida.

Mas, para quem sabe que Deus existe, a sabedoria é mais do que a destreza com a vida. São Tomás dirá que a sabedoria consiste em “conhecer a verdade divina e as demais verdades enquanto estão ordenadas a esta.”

Isto implica saber não só como usar as coisas deste mundo ou como desenvolver as tecnologias, mas recordar que Deus é a origem de tudo e que para Ele tudo se orienta. Isso ajuda-nos não apenas a ser tecnicamente bons, mas a ser moralmente certos. Podemos falar de três graus de uma verdadeira sabedoria: a filosofia, a teologia e a mística.

 

  1. A filosofia verdadeira nasce do espanto, da constatação de que a realidade existe e, depois, avança através das perguntas que ela levanta e das respostas que vai encontrando. Não nasce da dúvida. O Sábio não é o que desconfia, mas o que constata o que existe e procura ir mais fundo na compreensão da realidade. Não é o que sonha, mas o que abraça a realidade.

A filosofia é a procura de, com a razão e através de tudo o que se experimenta, conhecer as causas finais – o para quê de tudo – e os primeiros princípios sobre os quais se podem proceder para conhecer a realidade. Ela ajuda a conhecer a verdade patente na ordem das coisas e na sua harmonia, mas também nos faz ver e detestar o erro e a mentira.

A filosofia não é tanto o conjunto das coisas que os filósofos dizem, mas um amor à verdade que quer conhecer como as coisas são e como se faz para viver. Isto requer tempo, exige o uso das capacidades humanas, dos sentidos e da razão, mas também empenha a vontade nesta demanda da sabedoria. Não é só um saber enciclopédico, mas uma consciência da ordem e não é só uma grande quantidade de observação, mas um olhar profundo que vai à essência das coisas para saber o que são e como se relacionam entre si. A sabedoria filosófica tem uma função fundamental na vida social, ela educa o olhar sobre a realidade levando a ver o ser e as características do ser; ela enfrenta o desafio de conhecer tudo, mesmo quando não se consegue ver logo tudo bem.

 

  1. Além da filosofia, temos a sabedoria teológica que descobre não apenas que as coisas existem e a ordem da realidade, mas vê o Senhor que tudo faz e tudo sustenta na existência. A teologia coloca a pessoa em contacto com o que Deus diz de Si e do Seu plano para o mundo.

Não é preciso ser profissional da teologia para se ser teólogo, na verdade a sabedoria teológica é própria de quem vê a realidade na Sua relação com o Criador. Ela é própria dos simples, dos pequeninos como dirá Jesus, a quem o Pai revelou estas verdades.

Há uma teologia que, no fundo, ainda é filosofia, porque pensa em Deus como origem de tudo, mas não O conhece, e há uma teologia que nasce da fé. Esta sabedoria é possível porque Deus Se revelou, por isso, requer a graça e a luz da fé que nos dão acesso às verdades superiores. Ainda que ultrapassem a capacidade da inteligência humana, as verdades reveladas, para serem conhecidas, contam com a natureza racional do homem. A teologia que aprofunda aquilo que Deus dá a conhecer de Si e do plano para os homens, não dispensa – antes exalta – as capacidades humanas, quer da razão quer da vontade. A teologia pressupõe a fé e o assentimento da fé, porque implica a adesão às verdades reveladas, mas ela é, no dizer de Santo Anselmo, Intellectus fidei, por isso, precisa da inteligência humana.

A inteligência filosófica consegue concluir que faz sentido dizer que Deus existe, mas saber quem é Deus é mais e requer a Revelação de Deus que a inteligência consegue colher mas não consegue descobrir por si só. Afinal estamos a falar de Alguém que é superior aos homens que, para ser conhecido, tem de Se dar a conhecer. Não são os homens que sobem ao Céu sozinhos para conhecerem Deus, mas Deus que desce e Se mostra.

O Sábio não é o que dispensa a Revelação de Deus, julgando que isso diminui as suas potencialidades, mas o que conta com a Revelação para ir mais longe na sua sabedoria. A partir das verdades reveladas, o sábio quer compreender cada vez melhor o alcance na vida concreta de tudo o que a fé ensina.

Porque somos limitados e pecadores, não pensemos que podemos sozinhos chegar ao conhecimento do que Deus revela. Deus que se dá a conhecer oferece-nos a Igreja. Ela é o grande dom de Deus, o Templo do Espírito Santo, onde podemos aceder às Verdades reveladas e ter a justa interpretação. Não sou eu ou tu, mas a Igreja no seu todo que é guardiã do depósito da fé e, por isso, é ela que pode, através da sua Tradição e dos seus santos, confirmar se uma determinada doutrina é verdadeira ou errada. Uma teologia que seja contrária ao que a Igreja diz deixa de ser de confiança e cai na armadilha do demónio que tenta iludir.

 

  1. Quando a teologia se submete à Verdade revelada, torna-se verdadeiramente uma sabedoria de vida, uma capacidade de viver e de contemplar a verdade superior à do simples filósofo. Há, porém, um outro nível de sabedoria, a sabedoria mística, que vai além da reflexão e que provém de uma conaturalidade pela qual se conhece dentro de uma comunhão de vida. Uma sabedoria que nasce da relação de amor com o próprio Deus. É certo que a verdadeira teologia já precisa de se alimentar desta relação, mas falamos agora de um amor pessoal, de uma comunhão de vida com o próprio Deus. Esta permite-nos uma sabedoria mais elevada que não depende tanto dos estudos, mas da disponibilidade e da vontade de estar com Deus.

Esta sabedoria é um dom do Espírito Santo para ser vivido neste mundo dentro da experiência da fé, não se confunde, portanto, com a visão beatífica que espera os santos no Céu. É inevitável que continue marcada pelo escuro claro deste mundo, mas é já experiência e certeza da presença de Deus. Torna-se um conhecimento autêntico de Deus e da Sua vontade.

A sabedoria mais elevada de todas, por isso, é alcançada não tanto por quem complica ou acumula muitas coisas neste mundo, mas por quem deixa tudo para seguir Jesus Cristo. Quem se limita a querer saber muitas coisas ou pensa que basta aprender de Deus umas tantas regras de vida para depois ser recompensado, fica na posição do jovem rico que se aproxima de Jesus e acaba por se ir embora triste. Pelo contrário, quem coloca Deus no centro da vida descobre que há uma outra vida: a vida eterna e, por isso, deixa tudo o que tem para seguir esse que é o maior dos tesouros: Jesus Cristo.

Esta é a sabedoria mais valiosa que tudo o resto, esta é a sabedoria que enche de entusiasmo a vida e que não fica ao sabor dos ventos, das modas, dos apetites. Esta sabedoria faz que quem a tenha não se contente com sucessos neste mundo ou com prazeres que depois passam. Ela é exigente e pede muitas renúncias, e pode ser acompanhada por perseguições, mas, como diz Jesus e como vemos acontecer nos santos, multiplica a vida por cem... É muito melhor. Não é evidente que deixar tudo tem assegurado uma vida cem vez melhor, mas o sábio, que experimenta a amizade com Jesus, confia e torna-se testemunha de uma vida muito melhor. Nada há mais néscio e contrário à sabedoria do que pressupor que o Senhor da vida não percebe nada da vida.

 

Pe. Duarte da Cunha

Lisboa, 10 Outubro, 2021

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